Em 13 de outubro de 1996, no circuito de Suzuka, Damon Hill cruzou a linha de chegada e se tornou o primeiro piloto da história da Fórmula 1 a conquistar o título mundial repetindo a façanha do próprio pai. Graham Hill havia sido campeão em 1962 e 1968, e três décadas atrás o filho igualou o feito, encerrando também um jejum britânico que só seria rompido anos depois por Lewis Hamilton. A trajetória até ali, no entanto, foi longe de linear.
Uma estreia difícil e os anos de aprendizado
Hill chegou à F1 em 1992 por uma Brabham que mal conseguia se classificar para as corridas, estreando apenas na nona etapa, o GP da Inglaterra, com um modesto 16º lugar. Naquele ano, Nigel Mansell dominou com a Williams FW14 e selou o título com muitas rodadas de antecedência. A virada na carreira de Hill veio em 1993, quando a Williams precisou repor sua dupla de pilotos após a saída de Mansell para a Indy e a ida de Riccardo Patrese à Benetton. Ao lado de Alain Prost, campeão daquele ano, Hill subiu ao primeiro pódio logo em sua segunda corrida pela equipe, no Brasil, e conquistou a primeira vitória pouco depois, na Hungria.
Com a aposentadoria de Prost e a morte de Ayrton Senna, Hill assumiu o posto de principal piloto da Williams e, nos dois anos seguintes, viveu disputas de título acirradas contra Michael Schumacher. Em 1994, perdeu o campeonato por apenas um ponto, após a colisão na última volta decisiva em Adelaide. Em 1995, o vice-campeonato veio com margem maior, de 33 pontos, para o então bicampeão alemão.
1996: o ano da consagração
Com Schumacher transferido para a Ferrari, 1996 se abriu como a melhor oportunidade de Hill na categoria. O inglês venceu as três primeiras corridas da temporada - Austrália, Brasil e Argentina - e assumiu a ponta do campeonato. Seu companheiro de equipe, o estreante Jacques Villeneuve, vindo de título na Indy, também se mostrou rival direto, vencendo em solo europeu antes de Hill responder em Ímola. Ao longo da temporada, o britânico somou oito vitórias em 16 etapas, exatamente metade das corridas do ano, consolidando-se como favorito ao título mesmo com a concorrência interna da própria Williams.
A decisão em Suzuka
Chegando à última etapa do campeonato, apenas Hill e Villeneuve ainda disputavam o título. Na largada, o canadense teve problemas de tração e caiu para sexto, deixando Hill na liderança. A corrida parecia caminhar para uma definição nas voltas finais, mas na volta 37 Villeneuve perdeu a roda traseira direita e bateu na barreira de pneus, entregando o campeonato a Hill mesmo antes do fim da prova. O inglês administrou a vantagem e cruzou a linha de chegada com folga sobre Schumacher, segundo colocado, e Mika Häkkinen, que fechou o pódio pela McLaren. Curiosamente, o próprio Schumacher foi um dos primeiros a parabenizá-lo.
O epílogo de uma carreira incomum
Como ocorrera com Mansell após o título de 1992, Hill não teve contrato renovado pela Williams apesar de campeão. Em 1997, viveu uma temporada discreta pela modesta Arrows, com um quase inédito triunfo na Hungria frustrado por uma falha hidráulica nas voltas finais. Em 1998, pela Jordan, conquistou a última vitória da carreira, dando à equipe seu primeiro triunfo na história, num GP da Bélgica disputado sob chuva. Encerrou a trajetória na F1 em 1999, ainda pela escuderia irlandesa, sem grandes resultados. Desde então, Hill permaneceu ligado ao automobilismo, atuando como comentarista de TV e tendo presidido a associação britânica de pilotos - um legado que, até hoje, mantém apenas um paralelo na história da categoria: o de Nico Rosberg, campeão em 2016, que repetiu o título conquistado por seu pai, Keke, em 1982.