A novela envolvendo Cristiano Ronaldo e a seleção portuguesa tornou-se, naturalmente, a maior história do momento em Portugal. O caso abriu os telejornais na noite de quarta-feira e ocupou a capa de praticamente todos os grandes jornais do país. Para uns, Ronaldo teve razão em deixar a concentração dias depois de passar meia hora aquecendo contra a Noruega sem ser utilizado, numa atitude que muitos leram como provocação de Jorge Jesus. Para outros, o comportamento do atacante foi inaceitável, e sua saída era apenas questão de tempo diante de um treinador de temperamento tão forte.
Ronaldo prometeu dar sua versão dos fatos em breve, enquanto Jesus deve falar na noite desta quinta-feira, após o jogo da Liga das Nações contra a Dinamarca. O confronto entre essas duas personalidades fortes já vinha sendo gestado nos bastidores. Em julho, na primeira entrevista coletiva à frente da seleção, Jesus foi questionado sobre como seria sua relação com Ronaldo, a quem já havia treinado no Al-Nassr. Enquanto a crise ocupa manchetes e acalora debates nas redes sociais, parte do público português tenta se distrair com outras formas de entretenimento, incluindo opções de lazer digital como o solitaire online, que têm ganhado espaço entre quem busca uma pausa das discussões acaloradas do futebol.
Uma harmonia que durou pouco
Na ocasião, Jesus foi categórico: "O Cris nunca será um problema para a seleção ou para mim", disse, garantindo ter total controle sobre o temperamento do jogador. A harmonia, porém, não resistiu ao tempo. Em Portugal, a reação ao episódio dividiu-se em dois campos nitidamente opostos. De certa forma, repete-se o debate sobre a titularidade automática de Ronaldo na Copa do Mundo deste verão e a decisão de Roberto Martínez de mantê-lo em campo por quase todos os 90 minutos em quatro das cinco partidas, sem uma justificativa tática ou física evidente. Mesmo quando foi substituído nas oitavas de final contra a Croácia, isso só ocorreu aos 81 minutos.
Os fãs de Ronaldo o defendem com veemência nas redes sociais. Já parte da opinião pública entende que o jogador virou as costas para a seleção - mensagem estampada em letras garrafais na capa do O Jogo, um dos principais jornais esportivos do país. A maioria da imprensa portuguesa inclinou-se para a leitura de que Ronaldo agiu de forma egoísta, embora alguns veículos - principalmente aqueles em que o próprio atleta é acionista - tenham direcionado as críticas a Jesus, acusando-o de ingratidão e de voltar atrás em sua palavra.
O estopim: o banco contra a Noruega
Segundo o próprio Jesus, havia um acordo verbal de que Ronaldo, de 41 anos, não seria titular diante da Noruega no domingo passado, três dias depois de atuar por 67 minutos contra o País de Gales na estreia do técnico, mas entraria durante a partida. Ao longo do jogo, vencido por Portugal por 2 a 1, os planos mudaram: Ronaldo permaneceu no banco até o apito final, decisão justificada por Jesus com argumentos táticos. O atacante teria interpretado o episódio como uma humilhação pública.
Os primeiros sinais da ruptura surgiram logo após o apito final, quando Ronaldo deixou o gramado sem acompanhar os companheiros na saudação à torcida em Oslo. A frustração do jogador com Jesus, segundo relatos, atingiu o ápice durante a entrevista coletiva do técnico na quarta-feira. Questionado sobre a decisão de deixar Ronaldo no banco, Jesus afirmou controle absoluto sobre o grupo, deixando claro que nenhum jogador dita as regras ou influencia sua tática - um recado direto tanto ao craque quanto à Federação Portuguesa de Futebol (FPF).
"Posso prometer o que quiser. Sou o treinador e disse ao jogador que ele não ia jogar. Disse que o levaria para o banco e que, se precisasse dele por 30 minutos, ele entraria. Mas vi o jogo de outra forma, por isso não entrou. Não será o Cristiano, nem nenhum outro jogador, que vai mudar as minhas ideias como treinador. Nunca. Nem ele, nem ninguém. Nem um presidente. Nunca. Zero", declarou Jesus, de 72 anos, que também confirmou a intenção de escalar Gonçalo Ramos como titular na próxima partida.
Saída abrupta e futuro incerto
O desfecho é conhecido: Ronaldo deixou o hotel da concentração de forma abrupta, embarcou em um avião e publicou nas redes sociais a promessa de revelar "a verdade" em breve. Parte da imprensa associa esse episódio a uma mudança na forma como o atacante se comunica desde o rompimento, há quase quatro anos, com o empresário Jorge Mendes - ruptura que se seguiu à entrevista a Piers Morgan que precipitou sua saída do Manchester United. A amizade e os laços familiares entre Ronaldo e Mendes seguiriam intactos, mas o jogador hoje é gerido por uma equipe própria, levantando questionamentos sobre se há, ao seu redor, vozes dispostas a alertá-lo sobre riscos de imagem.
Mais uma vez, a narrativa em torno da seleção portuguesa é dominada por uma controvérsia envolvendo Ronaldo. Ele corre o risco de suspensão da FPF, que pode variar de um a seis meses, além de multa, por violação do código disciplinar da entidade. Na ausência das versões completas de ambos os lados, especulações se multiplicam, e alguns veículos já chegam a sugerir que o capitão jamais voltará a vestir a camisa da seleção. Depois de 234 jogos em 23 anos e 146 gols marcados, resta saber se será desta forma que Cristiano Ronaldo encerrará sua trajetória pela equipe nacional.